Eduardo Diogo recebe na SEPLAG o jornalista Francílio Dourado
Eduardo Diogo recebe na SEPLAG o jornalista Francílio Dourado

Eduardo Diogo relata sua experiência na AJE Fortaleza para documento de 25 anos

12 de agosto de 2014

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Os ex-coordenadores da AJE, Marcelo Pinheiro e Eduardo Diogo, durante a entrevista com os jornalistas Francílio Dourado e Vanessa Lourenço

A Associação dos Jovens Empresários de Fortaleza está completando 25 anos de fundação. Como parte das comemorações alusivas à data, a nova direção da entidade decidiu encarar o desafio de elaborar um livro com a história da AJE, a partir da visão dos seus coordenadores. Um deles é o advogado e Secretário do Planejamento e Gestão do Governo do Estado, Eduardo Diogo, que recebeu no Gabinete da SEPLAG os jornalistas Francílio Dourado e Vanessa Lourenço  para uma entrevista de mais de uma hora, quando relatou detalhes relevantes da história da AJE e da sua experiência como coordenador da entidade no ano de 1998.

AJE: Você foi coordenador em 1998. Gostaria que contextualizasse qual a sua visão daquele momento político-econômico do Ceará.

Assumi a AJE com 26 anos de idade. Tinha praticamente a referência de um único governador na nossa época, porque quando o Tasso foi eleito em 86, eu tinha 15 anos de idade. Depois veio o mandato do Ciro e depois o Tasso retornou ao Governo. Quando assumi a AJE, o Tasso estava no processo de reeleição para o terceiro mandato,  exatamente quando eu era coordenador. Então, do ponto de vista político do Estado, da abrangência de administrações, tinha uma visão muito restrita para fazer uma avaliação, porque praticamente só conhecia um Governador do Estado. Logicamente, na perspectiva de comparação com administrações, com modelos de gestão para o Estado, não no enfoque histórico.

AJE: Apesar de muito novo, você tinha alguma ideia do peso que a política tinha na economia do Estado?

Sem dúvida que não. Hoje tenho a visão totalmente diferente da importância que o setor público, a atividade pública tem como indutor da economia. Naquela época não. Minha visão era muito mais da iniciativa privada como sendo o grande empreendedor do desenvolvimento, o grande impulsionador do desenvolvimento do Estado. Não que seja contraditório, mas hoje é muito mais complementar, muito mais consistente, mais abrangente.

AJE: Você tinha um envolvimento econômico, negócio na família? O que levou você a se associar à AJE? O que ela tinha de especial que levou você até lá?

Queria ir além, que é você sair do raio de atuação do seu umbigo seja familiar, seja ciclo social, seja ciclo empresarial. O objetivo era poder encontrar um local de aprendizado, onde fosse buscar um conteúdo diferenciado e, ao mesmo tempo, esse conteúdo diferenciado fosse adicionado a relacionamento humano, com pessoas que também pensavam diferente, que também queriam dar um passo além. Pessoas que, por mais que a gente só conhecia ali a história daquele momento político do Estado, a gente tinha aquela limitação, mas sabia que ia ter o pós-Tasso, que ia existir o “por vir”. O objetivo da AJE sempre foi de modo muito claro e explícito em todas as oportunidades com a sociedade: o de formar novas e jovens lideranças, com o objetivo de ocupar espaço e funções de relevo no futuro logo ali adiante. Isso sempre foi dito e entendido pela sociedade, que apoiou de forma praticamente unânime. Qualquer local que a AJE ia, as portas eram abertas, então, o sentimento era de fazer algo a mais, tanto que inúmeras vezes a gente promoveu ações utilizando recursos de nossos próprios bolsos porque, mesmo com todo apoio, a estrutura que a gente dispunha era aquém da nossa vontade de fazer.

AJE: A AJE pra você era uma escola diferenciada no sentido de que os temas discutidos projetavam para o futuro, para que pudesse ocupar espaços de destaque. Em que ela foi escola de fato? O que você aprendeu mais lá? Quais as grandes lições tiradas da AJE? Quem eram os grandes mestres? Como acontecia esse processo de aprendizado?

Tinham duas principais figuras que foram responsáveis pela fundação da AJE: o professor Cleber Aquino e o jornalista Demócrito Dummar. Eles se respeitavam muito, tinham visões complementares e distintas também. Diria que o pessoal dessa época protagonizou um embate de ideias e de filosofia dentro da AJE de modo muito claro. Eu talvez estava mais na linha do que Dr. Demócrito imaginava, e tinha um outro pessoal de uma visão mais de como o professor Cleber Aquino pregava.

AJE: Quais as diferenças que você percebia nos dois pensamentos?

A diferença era nítida: a visão do professor Cleber Aquino era de ter um grupo absolutamente restrito de pessoas; empresários de empresas que representassem grandes grupos econômicos, o suprassumo da atividade econômica do Estado. Além disso, que tivesse uma carga de conteúdo acima da capacidade humana de absorver e poder trabalhar e, ao longo do caminhar ir aprendendo, recebendo e devolvendo, que é fundamental. Essa relação, dentro da concepção dele, me parecia impossível, porque você tinha que ler quatro jornais por dia, três livros por semana. Era uma coisa meio fora da curva, mas que cumpriu o seu papel de modo muito importante a partir do momento em que você tem a percepção de que o exagero dele era para chamar sua atenção pra isso. A nossa visão era de ampliação, de criação de associações de jovens empresários no interior do Estado, onde fundamos 14. O objetivo era  facultar a mesma oportunidade aos jovens que moravam no interior do Estado, com qualidade. Ter lideranças pensando como a gente, ter quantidade de pessoas e abrangência territorial. Não dava pra você fazer isso com meia dúzia de três ou quatro, tanto que o que a gente fez de ampliação, de criação da Federação, foi um processo que teve um embate interno veemente.

AJE: Você não falou do jornalista Demócrito Dummar, só do Aquino.

É porque entendo que o Dr. Demócrito se juntava à nossa filosofia de abrir o movimento. Eles se convergiam para muitas coisas; no que eles não convergiam, se respeitavam bastante. O Dr. Demócrito cedia mais do que o professor Cleber, que era muito mais rígido nas suas posições, pouco flexível. Então quando havia divergência, o Dr. Demócrito cedia. Era um simpatizante e participou da nossa expansão, tanto nos apoiando, quanto participando como palestrante em diversas oportunidades.

AJE: Que experiência mais marcou você na AJE?

Na AJE o que mais marcou foi o início do processo de interiorização. Isso pra mim é o que mais deu prazer e que acreditava que tinha mais possibilidades de gerar frutos. Era algo realmente de impacto, de qualidade e quantidade, e que tinha esse conceito de dar essa oportunidade, facultar a mesma oportunidade a todos. A AJE é o local que você busca acertar sem qualquer problema em errar. Você não tem condição de assumir uma Secretaria de Estado tendo a possibilidade de errar. Não dá pra errar.

AJE: Ocorreram mudanças significativas na AJE de quando você foi coordenador para agora?

Na minha visão, a AJE passou alguns anos de dificuldade, de escassez de conteúdo bastante significativa. A gente queria ampliar o número de oportunidades de pessoas com conteúdo, que tivessem acesso ao conteúdo. Não era pra diminuir o conteúdo, era pra gerar mais conteúdo para mais gente. Então, ela teve um momento em que o espírito empobreceu muito. Por mais duradouras, longevas, eternas e tudo mais que as instituições sejam, e nós não somos, elas são feitas por pessoas. O Governador do Estado do Ceará é o Dr. Cid Gomes. A partir de janeiro será outro. Mas hoje quem representa o Estado e dá o tom da gestão é ele. A AJE vive esse momento de planície, que eu tenho dificuldade de entender porque que não se consegue animar como em outrora. Uma das coisas básicas, consequência do se relacionar, da vivência que o movimento dos jovens empresários proporcionou a tantas pessoas, é você poder conviver sem valorizar tanto a patente. Você tinha a oportunidade se relacionar com várias autoridades. Eu, com 26 – 27 anos, estava representando a entidade, sentado à mesa, juntamente com o governador do Estado e o presidente da FIEC. Quando que um jovem de 26 anos teria essa oportunidade? Mas isso dava à gente um aumento do nível de consciência e um toque de humildade, que é fundamental pra que, quando você tiver oportunidade de ocupar determinadas funções, entenda que aquilo não te pertence. É apenas um momento que você está vivendo e que vai passar. Você vai entrar, caminhar, e sair. Isso é fundamental para se relacionar sem arrogância, sem soberba, sem prepotência, porque isso não combina com o movimento dos jovens empresários.

AJE: Em que a passagem pela AJE contribuiu para sua doação em outros ambientes?

A gente divide sonhos, desejos de mudança, uma série de esperanças de ter oportunidade em outras esferas. Tem um poeta que falava que a gente deve ter em nossa mesa de trabalho sempre a nossa foto quando criança, para que possamos ver se as nossas ações enquanto adulto e no dia a dia estão indo ao encontro dos desejos daquela criança de outrora. Eu não tenho a minha de criança, mas tenho a dos meus dois filhos, porque acho que os filhos tocam mais do que a nossa própria foto. Quando olho para eles, me vejo também enquanto criança. Isso é fundamental do ponto de vista da importância das decisões do governo na vida das pessoas. Tenho reconhecimento e gratidão muito grande pela Aline Telles, que me deu a oportunidade de sucedê-la. Sempre o próximo passo da nossa vida é decorrência daquilo que fazemos hoje. Não consigo viver um momento pensando em outro. Eu gosto de viver cada momento com a sua plenitude e a sua intensidade. E é exatamente essa plenitude que vai proporcionar o que a gente vem a viver no momento seguinte.

AJE: A AJE, de certa forma, o trouxe até aqui?

Plenamente. Em 2000 estava com 29 anos, tinha acabado de sair da AJE em 1998 e o Marcelo Pinheiro estava assumindo a coordenação geral da entidade. Após a eleição, tive dois convites para ter uma participação política, mas não partidária. Fui convidado pelo prefeito Cid Gomes, em Sobral, para assumir uma secretaria. Fui também convidado pelo prefeito Juraci Magalhães para atuar aqui em Fortaleza. Recusei os dois convites porque já tinha sido eleito presidente da CONAJE e ia me dar a oportunidade de criar uma série de relacionamentos nacionais e fora do Brasil e, quem sabe, futuramente poderíamos ter outra oportunidade de trabalharmos juntos. Isso foi plenamente decorrente dos jovens empresários. Os três aspectos que considero mais importantes para minha formação de hoje, uma é inerente a todos nós, que é a nossa história de vida em geral, a qual agrego dois aspectos específicos: AJE – FAJECE – CONAJE; e um estudo antropológico, psicológico, que fiz em Belo Horizonte durante alguns anos. O que sou hoje é fruto em especial desses três fatores.